A partir da meados do século XX a transformação do mundo passou a ocorrer em um processo acelerado. No campo da sustentabilidade, a economia tradicional, baseada nos princípios de “pegar, fazer e descartar”, está dividindo a cena com outras alternativas de economia como a criativa, compartilhada, colaborativa, de baixo carbono, inclusiva, circular e de impacto.

Enquanto um modelo está em declínio, um novo está surgindo, coexistindo em um mesmo tempo e espaço. Este fenômeno conhecido como processo de transição, é capaz de gerar desconforto, em especial para aqueles que conseguem percebê-lo. Isto porque, entendemos que não podemos mais continuar replicando incessantemente o parâmetro anterior, mas ainda não temos certeza, de que como fazer o novo acontecer.

Estas mudanças tem sido impulsionadas pelo impedimento de crescer dependendo de recursos naturais escassos, expondo as cadeias de suprimentos das empresas a sérios riscos. É esperado que a demanda de recursos relacionados a biomassa, energia fóssil e metais, será de 80 bilhões de toneladas, excedendo a capacidade da natureza em se regenerar, em cerca de 40 bilhões de toneladas até 2050.

Dentre múltiplas possibilidades, a definição da melhor estratégia socioambiental para a cadeia de valor pode afetar o custo, a gestão de riscos, o acesso a novos mercados, a reputação, a inovação de produtos e de negócios.

Neste artigo, sintetizo quatro modelos de negócios que favorecem a transição para a estratégia da economia circular, como uma das formas da gestão sustentável da cadeia de valor – descritas no meu livro Sustentabilidade na Cadeia de Valor: conceitos, estratégias e práticas São possibilidades que podem inspirar organizações e profissionais a encontrar trajetórias para novos padrões de produção e consumo, que prometem transformar a dinâmica do mercado e conceder uma vantagem competitiva real para os negócios pioneiros.

DESASSOCIAR O CRESCIMENTO DO USO DE RECURSOS NATURAIS

É o conceito principal de economia circular, com origens ao longo da história que não podem ser ligadas a uma única data ou autor, ganha destaque a partir de 2010, quando a Fundação Ellen MacArthur, começa a difundir sua mais recente versão e deixa o ambiente de negócios mais interessante. Porque na verdade, a economia circular não se trata apenas sobre a eficiência na utilização de recursos. Mas de fato, é sobre a evolução de tecnologias disruptivas e modelos de negócios baseados em longevidade, renovabilidade, reutilização, reparação, atualização, remodelação, compartilhamento de capacidades e desmaterialização. Todos estes elementos tem se configurado em quatro principais formas de negócios.

Plataforma de Compartilhamento

Pautado no conceito de que as pessoas querem o benefício e a experiência que as coisas proporcionam e não necessariamente as coisas em si. Este modelo de negócio promove uma plataforma de colaboração entre os usuários de produtos, pessoas ou organizações. Para facilitar a partilha do excesso de capacidade ou subutilização de um produto ou serviço. Hoje é mais comumente encontrado entre empresas especializadas em aumentar a taxa de utilização de produtos sem fazer qualquer fabricação, colocando uma pressão considerável sobre os fabricantes tradicionais. No entanto, sempre que fizer sentido econômico para o consumidor: a lógica do compartilhamento tende a prevalecer.

É o caso do setor de transporte, onde o UBER é um exemplo emblemático. Mas aplica-se a segmentos tradicionais igualmente. É o caso das grandes montadoras de automóveis como Peugeot Citröen, Mercedes, Ford, BMW, Renault, Volkswagen e Fiat Chrysler, que participam de concessões junto as prefeituras das grandes cidades no Brasil para fazer estudo de viabilidade de carros compartilhados, que compõe a mobilidade urbana integrada. Fatia que movimentará 6 bilhões de dólares até 2020.

Cadeia de suprimentos circular

Baseia-se no fornecimento de recursos e insumos totalmente renováveis, recicláveis, biodegradáveis que sustentam a produção circular e os sistemas de consumo. Através dele, as empresas substituem a abordagem do recurso linear e eliminam gradualmente a utilização de matérias primas, reduzem ineficiências e transformam resíduos em valor. Realizam a recuperação dos materiais que existem no final de ciclo de vida do produto, para alimentar o próprio fornecimento ou de outras cadeias produtivas. Este modelo pode ser utilizado por empresas que fabricam bens a partir de matérias primas não renováveis ou aqueles com um grande pegada ambiental.

NatGeniu oferece soluções de operação reversa e desenvolvimento de novos produtos originados de eletrodomésticos e equipamentos de refrigeração comercial descartados ao final da vida útil. O modelo repensa a economia como um sistema regenerativo, no qual todos os materiais podem ser reaproveitados em outros processos industriais, reduzindo assim o consumo de recursos naturais e o envio de resíduos a aterros

A Termotécnica implantou a logística reversa do EPS engajando clientes, varejistas, concorrentes, fornecedores, importadores, catadores e consumidores. Com uma rede de mais de 1.100 pontos de coletas e mais de 270 cooperativas. O material insere-se desde a fase de produção da matéria-prima até o produto final, passando pela coleta do material, sua reciclagem e reintrodução no mercado

Produto com ciclo de vida prolongado

Produtos que seriam descartados, são mantidos ou mesmo melhorados por reparação, modernização, remanufatura ou produtos de recolocação. Utilizando este modelo, uma empresa garante que os produtos permaneçam economicamente úteis o máximo possível. E que as atualizações dos produtos sejam feitos de uma forma mais orientada. Este modelo é apropriado para empresas onde são comuns as novas versões de um produto que geram benefícios adicionais parciais de desempenho para os clientes em relação à versão anterior.

Google fará testes de mercado do novo celular em módulos. Podem incluir câmeras, alto-falantes, baterias, telas, processadores, antenas, sensores para monitorar o nível de açúcar no sangue, projetores de imagens, feixes de laser e uma série de outros itens que podem ser acoplados ao celular por meio de ímãs. A empresa afirma que este novo design de smartphone aumentará a vida útil do aparelho, porque o consumidor poderá substituir suas partes em vez do telefone inteiro.

MASISA realiza um Concurso de Design para Estudantes, cujo desafio é “Imaginar o mundo em 2050, e projetar um móvel desmontável e reaproveitável.” Dessa maneira estimula novos design de produtos de maneira que o móvel possa ser desmontado e utilizado para diferentes funções conforme a necessidade do consumidor ao longo do seu ciclo de vida.

Produto por Serviço

É o modelo que fornece uma alternativa ao tradicional modelo de “comprar e possuir.”Os produtos são utilizados por um ou muitos clientes através de um contrato de locação. Este modelo é atraente para as empresas cujo os custo dos produtos é alto e que têm uma habilidade em relação à manutenção de produtos e gerenciamento de clientes, dando-lhes uma vantagem na venda de serviços para recuperar o valor residual no fim da vida.

Para os clientes da Michelin que possuem frota de veículos, os pneus são vendidos como um serviço, pagos por milhas dirigidas. Os produtos são utilizados por um ou muitos clientes através de um contrato de locação. Os clientes não têm que lidar com problemas de manutenção de qualquer tipo. Para recuperar os pneus no final do ciclo, a empresa certifica-se que o design e a seleção de material possam ser reprocessados para pneus. Ou como material de preenchimento para a construção civil.

A Entropy®, é o primeiro de uma nova categoria de carpetes modulares da Interface Flor.A padronização e as cores únicas permitem uma instalação fácil e reposições com menos resíduos e sem adesivos tradicionais. Os carpetes são vendidos em forma de leasing.Após 10 anos, a Interface Flor retira da casa do cliente e os reaproveita como matéria prima transformada. E vende o novo carpete a preços diferenciados para os clientes fidelizados.

COMO OCORRE A TRANSIÇÃO DA ECONOMIA LINEAR PARA A ECONOMIA CIRCULAR?

Na prática, as empresas adotam dois caminhos:

Empresas estabelecidas

Para as empresas em operação, a transição pode ocorrer ao abrir modelos de negócios paralelos aos tradicionais, como forma de entrada neste mercado. Ou de maneira gradativa. Ao incorporar no negócio tradicional, os princípios da economia circular. Em uma linha de negócio, uma linha de produto, em um processo produtivo ou em uma unidade de produção.

Novas empresas

Para os novos empreendedores, é necessário compreender quais as oportunidades desse mercado e a relação com o seu negócio, não se intimidar com as barreiras de entrada e orientar a estratégia para a vantagem circular.

QUAIS SÃO AS OPORTUNIDADES DA ECONOMIA CIRCULAR?

  •  A economia circular movimentará 1 trilhão de dólares no mundo nos próximos 10 anos.
  • Três bilhões de consumidores de classe média são esperados para entrar no mercado global em 2030, impulsionando a demanda sem precedentes para os produtos e serviços compartilhados.
  • A economia conseguirá crescer baseada em soluções para a recuperação de resíduos, a medida que os materiais novos se tornam cada vez mais raros e mais caros.
  • Haverá demanda por sistemas sofisticados para obter metais e materiais de produtos em final de uso.
  • Haverá necessidade por serviços eficientes de transporte para logística reversa.
  • As cooperativas de reciclagem crescerão como negócios devido ao aumento dos valores dos materiais recuperados.

A economia circular é um dos poucos modelos viáveis e escalonáveis de crescimento que podem melhorar radicalmente a produtividade dos recursos naturais, gerar maior inovação e criação de emprego.

Simone Faustini é professora, escritora e atua na Nexus Consultoria, assessorando as empresas a promover relações sustentáveis entre sociedade, meio ambiente e negócios. www.nexusconsuloria.com.

Escrito por Nexus